sexta-feira, 7 de agosto de 2009

O contador de Histórias


Acabei de assistir o filme "o Contador de história" amei !!!
Mas acho que nada substitui ouvir a história pela boca de Roberto Carlos , quem já o ouviu sabe o quanto é mágico e eu já tive a oportunidade de estar com ele aqui em BH e em Uberlândia , acho também que quando a gente tem esse momento de estar com ele, Você consegue interagir fazer perguntas , tirar dúvidas, sem falar no carísma e na simpatia de Roberto Carlos, uma pessoa extremamente acessível e nem um pouco deslumbrado com a fama .
A história mostra muito bem o momento da ditatura militar no Brasil, o governo propagando seus projetos como "Brasil Grande" principalmente tendo na educação pública no caso (FEBEM) , como forma de tirar o indivíduo da pobreza e prometendo um futuro melhor .Qualquer mãe que não tinha nenhum meio de comunicação , que esperava o domingo para assistir TV na casa do vizinho, uma pessoa sem capital cultural, sem ninguém para ajudá-la a checar as informações com certeza ficaria encantada com a propaganda "aqui formaremos médicos, engenheiros e advogados".
Um pobre que conseguisse uma vaga nessa instituição com certeza será rico !! Irá salvar toda família .
O bom é que o filme se passa na nossa cidade e a gente tem a sensação que estamos ali: Parque municipal, Horto florestal, Viaduto Santa Tereza , Mineirão ... aí a gente pensa nossa essa história tá pertinho de mim .

quinta-feira, 6 de agosto de 2009

Para o dia dos pais


Acredito que tudo deve ser celebrado e agradecido , aos que tem pai abrace-o aos que não o tem nesse plano sinta-o, o importante é descobrir que alguma vez pelo olhar, por um acontecimento, por um simples gesto você pensou: "que bom que ele é meu pai".
Deixo aqui uma crônica de Arnaldo jabor, me identifiquei com o texto.
O dia em que conheci meu pai
Meu pai foi um mistério em minha vida; não nos comunicávamos muito bem... Ele era perigo de castigos, o Supremo tribunal que julgava meus erros. por isso, ao escrever este artigo, sinto seu olhar por cima do meu ombro. Escrevo de novo sobre ele porque o filme que termino agora nasceu talvez de sua presença poderosa - eu, minha, minha irmã girávamos em torno dele como satélites. Naquela época o pai de família era a bússula de todos - viver era aceitá-lo ou contrariá-lo.
Eu sempre quis que ele me aprovasse,receber um elogio, um beijo espontâneo que nunca vinha. ele parecia saber de algum crime que eu cometera, mas não dizia qual era. Eu sofria: "o que foi que eu fiz?" meu pai ria pouco, como se o riso fosse um luxo, mas eu me empolgava quando ele chegava num avião de combate, coberto de dragonas douradas no uniforme da Aeronáutica, ele, meu herói que conquistara o pico do papagaio como jovem alpinista e que fazia acrobacias de cabeça para baixo nos aviõezinhos do Correio Aéreo. Quando peguei coqueluche, ele me levou num bi-motor a 4.000metros de altura, pois diziam que isso curava a tosse renitente. O avião subiu com meu pai pilotando, um sargento e minha mãe num casaco de pele, com cabelo preso num coque alto chamado "bomba atômica", cruel homenagem da moda à destruição de Hiroshima. De repente, a porta do avião se abriu a 4.000 metros e eu teria sido chupado para fora, não fosse a rápida ação do sargento.
Até hoje, não sei se isso realmente aconteceu, pois meu pai sempre me causava fantasia de extinção. Ele era um árabe alto, nariz de águia, bigodinho ralo, cabelo reluzente de Glostora, óculos Ray-Ban, sapatos de borracha Clark, da casa Polar.
Hoje, entendo que ele queria fazer de mim um homem - a severidade ocultando o amor. Sei agora que ele queria dar-me exemplos de espartana resistência, de chorar sem lágrimas. Claro que virei artista, por formação reativa, claro, que,quando ele me deu um livro (nunca aberto) sobre mineração de carvão, eu ia ler Rimbaud e escrever poesias. Com minha mãe superprotetora, se eu bobeasse, hoje estaria cantando boleros, "drag queem" com codinome Neide Suely.
Minha vida se organizou para ser tudo o que ele não era - uma maneira de obedecê-lo em revolta. Ele era moralista? eu defendia sacanagens e palavrões. Ele era UDN? Entrei para o PCB aos 18 anos.
Então comecei a despertá-lo da letargia desatenta a mim, provocando-o, esculhabando norte-americanos e militares, culpando a Aeronáutica pelo suicídio do Getúlio. Aí, conseguia berros à mesa de jantar, com minha mãe pálida, susurrando: "Olha os vizinhos!"
Queriam-me diplomata? Ah...hoje eu poderia ser um pobre itamarateca alcoólatra ... fui ser nada, maluco, comuna na UNE; depois, por acaso, acabei cineasta... O tempo foi passando. Papai aposentou-se cedo demais e aquele projeto de "picos do papagaio", de aviões em parafusos, de um heroísmo guerreiro virou um silêncio aterrador no apartamentozinho de Copacabana, onde o tempo parecia parar. Entre as poltronas dos anos 40, entre os vasos de flores de minha mãe, a presença de meu pai era quase abstrata, vendo TV de tarde, de pijama, em meio a minhas visitas, quando eu tentava alguma coisa que mudasse aquela paralítica tragédia, aquele relógio do avô que batia o pêndulo em vão.
Todos os dias eram iguais; só minha mãe mudava, cada vez mais perto da senilidade, visitando a médium "linha branca" que lhe dava conselhos com voz grossa de caboclo. Eu queria que alguma coisa acontecesse, queria vê-los dentro da cidade, mas só saíam para comer num sinistro restaurante "a quilo", de fórmica rosa e amarela.
Um dia, nasceu-me a primeira filha. Foi um momento de vida e luz, mas, logo depois, meu pai caiu doente, com uma enigmática infecção pulmonar, que não passava. Médicos se sucediam: tuberculose, enfisema? o quê? Foi uma revolução cultural no apartamentozinho de Copacabana: aquele rei silencioso estava caído no divã, cuspilhando, febre permanente, precisando de ajuda. Então, a força estava fraca? o pai virara filho? Minha mãe pirou mais ainda, sem saber lidar com tanto poder que ganhara, tanta liberdade súbita. Eu também estranhava aquele titã caído. Um dia o médico decretou: "Está muito anêmico... Precisa de transfusão de sangue".
Fui levá-lo à Casa de Saúde São José, onde minha primeira filha tinha nascido, pouco antes.Deixei meu pai na cama de um quarto, com a bolsa de sangue pingando-lhe nas veias e, para evitar o silêncio triste da lenta transfusão, saí pelos corredores, para dar uma volta sem rumo. De repente, ouço dois tiros. Sim, dois tiros de revólver.
E foi aí que minha vida começou a mudar. Pela porta do quarto ao lado, olho e vejo dois homens caídos no chão branco de fórmica,boiando em duas imensas poças de sangue. Um já estava morto e o outro agonizava de boca aberta, emitindo um soluço com um assobio assustador, como um peixe morrendo fora d'água. Enfermeiros acorreram e eu soube que tinha sido um crime passional.
Um médico matara o outro e suicidara-se em seguida. Nada mais fora de lugar que um assassinato no hospital.
Tudo se juntava, meus fantasmas acorriam todos, num climax de vida e morte. Vi, espantado, que um deles era o ginecologista que tratava de minha mãe e que estava ali, boiando no próprio sangue, no hospital onde acabara de nascer minha filha. A transfusão acabou, as ambulâncias levaram os corpos e ficamos , eu e meu pai assustados, sozinhos ali no quarto. O mundo tinha mudado.
Então, não sei por que, comecei a sentir um imenso carinho por meu pai, ali, fraquinho, cabelo branco. Ajudei-o a se arrumar, fechei-lhe o paletó e voltamos para casa, como cúmplices mudos de um crime, de um jorro de morte que destruiu nossa melancolia e nos uniu de uma forma misteriosa.
Nunca entendi bem o que aconteceu- só sei que não houve mais silêncios tristes entre nós dois.
Fonte: Jornal o Tempo 21/07/2009

terça-feira, 4 de agosto de 2009

Minha Verdade Me Traiu - Fátima Cangussu


Está uma melancólica noite de inverno. Não consigo desvencilhar-me dos pensamentos que atormentam meus sonhos.
Alguns tempos atrás, conheci um escritor e iniciamos um mágico namoro literário. Aliás, somente eu o namorava, ele não tinha consciência do nosso caso. Estava tão absorto em seus escritos, que não percebeu que dos seus artigos me enamorava. Foi amor à primeira leitura.
Mas, estou percebendo que é um romance literalmente impossível, pois ele é um nobre escrevedor e eu apenas uma plebéia literária. Seus trabalhos demonstram sistematicamente o vasto conhecimento que possui. Estudioso de renomados autores, ele os disserta com competência e autoridade indiscutíveis. Ao mesmo tempo discorre sobre epsódios do cotidiano com habilidade e destreza. Escreve lindos poemas que tramitam entre os singelos e os audaciosos, sem contar os textos complexos e reflexivos. Bem, poderia ficar horas enumerando apaixonadamente seus predicativos literários, pois para tanto ele se preparou, estudou anos e anos a fio.
Nesta noite, estou me certificando que nosso relacionamento literário não tem um futuro promissor, pois sou insignificante diante de sua sapiência. Não pertenço ao mundo das letras, tampouco dediquei a estudar com afinco. É bem verdade que não tive grandes oportunidades, embora seja cômodo responsabilizar esse fato como tal. O pouco conhecimento que tenho não está fundamentado em nenhum teórico. Escrevo simplesmente pelo prazer de escrever, sem grandes pretensões, e para isto, conto apenas com minha sensibilidade. E para agravar o desgaste desta relação, estou com ciúmes literários dos seus escritos informativos, das análises literárias e dos poemas dedicados as paixões avassaladoras e amores perpetuados. Enfim todos os seus artigos, até mesmo aqueles que nos remetem a refletir sobre nós mesmos. Estou me tornando possessiva ao analisar os seus trabalhos e por mais que tente me libertar, não consigo ser imparcial nos meus julgamentos. Também estou lhe sufocando com tantas cobranças e exigências literárias.
Receio, que nosso episódio leterário, por minha culpa, aqui assumo, está em plena decadência e agoniza. Agoniza nas antíteses dos poemas desencontrados nos encantos e desencantos que criei. No brilho fosco da metáfora de uma poesia pobre. Tão pobre quanto as marcas deixadas no meu coração, das quais não tê-las,tanto, tanto lamentei. Nos complexos artigos, que jamais escreverei. Nos contos de relatos lacônicos, que fatidicamente apregoei. Na natureza pueril dos textos, que com certeza descreverei. Nas personificações retratadas das crônicas que relatei. Nas rimas que não consegui fazer acontecer, pois quem rima por prazer, é livre por querer...
Necessito, portanto,romper com nosso romance literalmente conflituoso, já que a minha tênue verdade me traiu.
13/08/2008

domingo, 2 de agosto de 2009

Resíduo

De tudo ficou um pouco
Do meu medo.Do teu asco.
Dos gritos gagos. Da rosa
ficou um pouco

Ficou um pouco de luz
captada no chapéu.
Nos olhos do rufião
de ternura ficou um pouco
(muito pouco)

Pouco ficou deste pó
de que teu branco sapato
se cobriu. Ficaram poucas
roupas,poucos véus rotos
pouco,pouco,muito pouco.

Mas de tudo fica um pouco.
da ponte bombardeada,
de duas folhas de grama,
do maço
-vazio-- de cigarros,ficou um pouco.

Pois de tudo fica um pouco.
Fica um pouco de teu queixo
no queixo de tua filha.
De teu áspero silêncio
um pouco ficou, um pouco
nos muros zangados,
nas folhas,mudas,que sobem.

Ficou um pouco de tudo
no pires de porcelana,
dragão partido,flor branca,
ficou um pouco
de ruga na vossa testa,
retrato.

Se de tudo fica um pouco,
mas por que não ficaria
um pouco de mim?no trem
que leva ao norte, no barco,
nos anúncios de jornal,
um pouco de mim em Londres,um pouco de mim algures?
na consoante?
no poço?

Um pouco fica oscilando
na embocadura dos rios
e os peixes não o evitam,
um pouco: não está nos livros.
De tudo fica um pouco.
Não muito: de uma torneira
pinga esta gota absurda,
meio sal e meio álcool,
salta essa perna de rã,
este vidro de relógio
partido em mil esperanças,
este pescoço de cisne,
este segredo infantil...
De tudo ficou um pouco:
de mim;de ti; de Abelardo.
Cabelo na minha manga,
de tudo ficou um pouco;
vento nas orelhas minhas,
simplório arroto, gemido
de víscera inconformada,
e minúsculos artefatos:
campânula,alvéolo, capsula
de revolver... de aspirina.
De tudo ficou um pouco.

E de tudo fica um pouco.
Oh abre os vidros de loção
e abafa
o insuportável mau cheiro da memória.

Mas de tudo, terrível,fica um pouco,
e sob as ondas ritmadas
e sob as nuvens e os ventos
e sob as pontes e sob os túneis
e sob as labaredas e sob o sarcasmo
e sob a gosma e sob o vômito
e sob o soluço, o cárcere, o esquecido
e sob o espetáculos e sob a morte escarlate
e sob as bibliotecas, os asilos, as igrejas triunfantes
e sob tu mesmo e sob teus pés já duros
e sob os gonzos da família e da classe,
fica sempre um pouco de tudo.
Às vezes um botão. "As vezes um rato.

Carlos Drummond de Andrade